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Um costume evangélico nocivo a tradição cristã é o de achar que tudo o que venha ou se assemelha a Igreja Católica Romana é pagão e idólatra, quase de forma automática. Os traumas quanto aos excessos católico-romanos em áreas como justificação, veneração e governo eclesiástico levou muitos evangélicos a desprezarem aquilo que é verdadeiramente cristão apenas por “parecer católico”. Dentre os ricos elementos distorcidos em nossa fé devido a essa exclusão, estão:
- Liturgia
- Sacramentos
- Credos, Catecismos e Confissões
- Governo eclesiástico
- Riqueza artística
- Honra aos mártires
- Hinos e louvores de adoração verdadeira
Existem outras áreas que o evangelicalismo extremista afetou permanentemente na cristandade mas creio que essas sejam as mais notáveis. Escreverei uma série de publicações sobre cada um destes temas mas antes de explorar cada um com detalhes, é preciso esclarecer o que seria liturgia. Apenas uma palavra chique para “tradição”? Algo descartável no culto que tradicionalistas endeusam excessivamente? É o que veremos.
Significado
O serviço ministerial que vocês estão realizando não está apenas suprindo as necessidades do povo de Deus, mas também transbordando em muitas expressões de gratidão a Deus. (2 Coríntios 9:12, NVI)
A palavra chave é uma união de duas que estão comumente associadas no culto da igreja, διακονία (diakonia) e λειτουργία (leitourgia). Sendo assim, a liturgia está na Bíblia, mesmo que não da maneira em que a vemos comumente, e seu contexto aponta para a sua importância. O serviço ministerial aqui apresentado está ligado a caridade, a manifestação de amor cristã para com os necessitados. Existem vários estudos bíblicos mais aprofundados*, mas de forma geral, o apóstolo dispensa estímulos para a ajuda humanitária visto o ânimo da igreja e lhes dá a instrução de ofertarem sem temor, instruindo aos ministros a agirem com amor e semearem beneficentemente “para que em tudo enriqueçais em toda generosidade” (v.11).
A liturgia está intimamente ligada ao serviço dos ministros de amor pela congregação, agindo também como adoração ao Senhor. Os frutos que as contribuições da igreja trazem para os carentes estão ligados ao regulamentado proceder dos diáconos e presbíteros no serviço público, direcionado ao enriquecimento espiritual dos santos. Isto é liturgia.
No Antigo Testamento
Isso nos revela muito do caráter do Senhor. Ele é Deus de ordem, respeito e regras a serem seguidas, porém não é inflexível e insensível perante o coração humano. Ele sabe que corações voltados a Ele são mais importantes do que holocaustos, pois como está escrito “a obediência é melhor do que o sacrifício, e a submissão melhor do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22). Isto, entretanto, em momento algum diminui a relevância litúrgica.
No Novo Testamento
Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos (…) Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiram o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo (Atos 2:42-43,46-47)
Vemos que a principal regra da liturgia cristã era a comunhão e o temor a Deus. Assim deve ser guiado o culto nas igrejas até os dias de hoje e as mais tradicionais que mantém a mensagem do evangelho verdadeiro são as que mais se aproximam deste culto. Alguns podem dizer, “mas não há detalhes!” e eu digo: Nunca haverá. As Escrituras nos trazem as normas básicas de culto e nos apresenta o dia das reuniões (At 20:7) e os sacramentos que devem ser realizados (Mt 28:19; 1 Co 11:23-26), porém todo o restante fica a cargo das congregações em desenvolverem costumes e tradições que não violem os preceitos bíblicos, guiadas pela instrução dos apóstolos e presbíteros escolhidos por eles.
Na Igreja Primitiva
Depois das Escrituras, nosso principal guia para a liturgia é a tradição apostólica, exposta pelos primeiros cristãos. Observamos esse testemunho nos apologistas do segundo século como Justino Mártir (100-165 d.C), um dos maiores defensores da fé no início da Igreja, descrevendo a liturgia dominical em sua obra chamada Primeira Apologia. Assim ele diz:
No dia que se chama do Sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas. Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esse belos exemplos. Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces [2]
Isto nos dá um parâmetro mais claro de como funcionava a liturgia na antiga Igreja. Primeiro, observamos que o dia de culto dos cristãos é o Domingo, chamado dia do Sol. Isto Justino Mártir explica mais adiante, em coerência com outro grande bispo, Inácio de Antioquia (35-108 d.C), discípulo de João, testificando que o dia normativo é o Domingo tendo em vista a ressurreição de Cristo Jesus [3].
A liturgia é composta pela leitura bíblica da “memória dos apóstolos”, a maneira que eles chamavam os Evangelhos, ou os “escritos dos profetas”, as Escrituras hebraicas como um todo. As Escrituras sempre tiveram papel fundamental na liturgia e era a grande revelação dos preceitos divinos aos cristãos, ocupando lugar de destaque no culto, assim como a Lei era central na adoração judaica (Lc 4:16).
Acompanhado de seu estudo e da exortação realizada pelos presbíteros, chamada homília anos depois, estava o momento solene da Santa Ceia, chamada Eucaristia pelas primeiras comunidades, onde a morte de Cristo era proclamada e a graça contida nos sacramentos era transmitida aos fiéis. Por fim, tínhamos as preces realizadas em conjunto de toda a congregação, envolvendo geralmente uma confissão pública de pecados.
Outra grande fonte sobre o culto cristão, ainda mais antigo que Justino Mártir ou Inácio, é o Didaquê, chamado também de “A Instrução dos Doze Apóstolos”. catecismo cristão composto entre os anos 60 a 90 d.C. Ele contém instruções sobre o modo de viver dos cristãos, repetição de ensinamentos apostólicos e maiores esclarecimentos sobre o batismo (Cap. VII), o jejum (Cap. VIII) e a Eucaristia (Cap. IX). Novamente, percebemos a liturgia como elemento essencial na ordem e unidade da adoração, mantendo a coesão da Igreja.
O culto litúrgico cristão visa se distanciar do culto dos pagãos e perseguidores de Cristo mas também como forma de certificar-se dos crentes verdadeiros. Após dar as instruções necessárias, é dito que “aquele que ensinar tudo o que foi dito, deve ser acolhido” [4]. A adoração verdadeira caracteriza uma fé verdadeira.
Os costumes judaicos de purificação e holocaustos desaparecem para dar lugar a uma adoração sincera e comunitária que mantenha a reverência ao Deus Santíssimo. A maioria das igrejas não era grandemente ornamentada e não possuía requintes decorativos como as sinagogas helenistas da época, porém os corações eram totalmente voltados ao Senhor, sem lugar para exageros emocionais, danças, línguas inexistentes, convulsões, louvores centrados no ego ou discursos de triunfo.
A Pessach (פסח, “passar por cima”), a Páscoa Judaica, é substituída pela Páscoa Cristã, onde é celebrado a morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, juntamente com o Pentecostes e a Epifania, a tríade das primeiras festividades cristãs. O Natal viria de uma ramificação desta última festa, como expliquei nesta publicação.
Em segundo plano, os cristãos passam a lembrar e honrar continuamente os santos profetas (Lc 1:70), os santos apóstolos (Ap 5:8) e os santos mártires (Ap 7:9-12), sem venerá-los da forma que veneram ao Senhor e a Cristo. Isto fica bastante claro nas menções contínuas a eles nos textos primitivos.
Na Reforma
aceitável de se cultuar o Deus verdadeiro é aquela instituída por Ele mesmo, e que está bem delimitada por
sua própria vontade revelada, para
que Deus não seja adorado de acordo
com as imaginações e invenções humanas (…) ou qualquer
outro modo não prescrito nas Sagradas Escrituras”[7] **.
Atualidade e Conclusão
Tratando da aproximação a Deus, a igreja Reformada [e os puritanos] sempre observaram estabelecer uma ordem de adoração que eles pudessem validar biblicamente, e praticamente utilizar para o bem da congregação como “a geração escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo particular” (1 Pedro 2:9) [10]
Adorem ao Senhor no esplendor da sua santidade; tremam diante dele todos os habitantes da terra. Salmos 96:9
Reformed Liturgical Services and the Puritan Order of Worship, Articles on Puritan Worship and the Regulative Principle. A Puritan’s Mind.
Matthew Henry Commentary on the Whole Bible (Complete), 1706.

