Na minha primeira publicação sobre os mártires da história da Igreja, falei de um dos meus preferidos, Policarpo de Esmirna, discípulo do Apóstolo João que morreu corajosamente em nome de Cristo. Cite também Inácio de Antioquia, seu bispo tutor que esteve em sua casa perto de morrer em Roma e é sua historia que contarei hoje, o grande Inácio, o mais famoso Pai Apostólico. Se quiser ver o vídeo que lancei no meu canal sobre ele, clique nesse link.
Princípio e formação
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| Ícone de Inácio, o Pai Apostólico |
Eusébio de Cesaréia (265-339) assim testifica:
antioquenos, Inácio, o segundo, reinava no tempo do qual falamos” [3]
A cidade de Antioquia era a capital da província da Síria, centro importante para o Império e foi o local onde os apóstolos foram chamados cristãos pela primeira vez (At 11:26). A igreja foi formada principalmente por cristãos vindos de Jerusalém devido a perseguição e pelo fato da mão do Senhor estar com eles (At 11:21), a nova fé conquistou muitas almas, especialmente aqueles com um passado no judaísmo como o diácono Nicolau (At 6:5). Mesmo que Inácio tivesse um passado pagão, ressalta bastante a distinção entre o cristianismo e o judaísmo [7], representando essa transição da fé cristã como independente do passado judaico.
As Epístolas de Inácio
Inácio é considerado o mais importante dentre os Pais Apostólicos, grupo que inclui Policarpo e Clemente de Roma, todos datados da transição entre os séculos I e II e nos deixou sete epístolas preenchidas por uma fé de enorme vigor, revelando seu fascínio por Jesus Cristo e tornando-as ótimas fontes para conhecer o cristianismo de seu tempo. São elas:
- Epístola aos Magnésios
- Epístola aos Trálios
- Epístola aos Efésios
- Epístola aos Romanos
- Epístola aos Filadelfos
- Epístola aos Esmirnenses
- Epístola a Policarpo
As quatro primeiras foram escritas em Esmirna, quando sediava-se na casa de Policarpo de Esmirna, enquanto as três últimas foram escritas em Trôade, todas durante a sua jornada ao martírio. Embora cada uma contivesse um tema particular, o maior propósito que se eleva sobre todas é a unidade visível e invisível do Corpo de Cristo.
estejais dispostos a fazer todas as coisas na concórdia de Deus, sob a presidência
do bispo, que ocupa o lugar de Deus, dos presbíteros, que representam o colégio dos
apóstolos, e dos diáconos, que são muito caros para mim, aos quais foi confiado o serviço
de Jesus Cristo, que antes dos séculos estava junto do Pai e por fim se manifestou [10]
manter-vos firmes nos ensinamentos do Senhor e dos apóstolos, para que
prospere tudo o que fizerdes na carne e no espírito (…) unidos ao vosso digníssimo bispo e à preciosa coroa
espiritual formada pelos vossos presbíteros e diáconos segundo Deus [17]
A união é tanto física quanto espiritual, ameaçada na carne mas imperecível no espírito (Ef 4:1:6)
Esta foi a hierarquia que se convencionou:
- Bispos como representantes locais da congregação e representantes diretos do Senhor,
- Presbíteros como ministros teológicos que ministram os sacramentos, auxiliam o bispo e exortam a congregação, sendo que um deles se tornará o futuro bispo,
- Diáconos como ministros da comunidade, auxiliando na coleta financeira, na distribuição das doações, no socorro aos doentes e necessitados e outras carências sociais.
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| Estrutura hierárquica da Igreja, desenvolvida a partir do século II |
Onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica. Tudo o que ele aprova, é também agradável a Deus, para que seja legítimo e válido tudo o que se faz [22]
o partir do mesmo pão, que é remédio de imortalidade, antídoto para não morrer, mas para viver em Jesus Cristo para sempre [24]
Tal ensinamento estava em conexão direta com sua compreensão da encarnação de Cristo. Em um período onde o docetismo (dókēsis, “aparência”) dominava muitos cristãos, rejeitando a realidade humana de nosso Salvador, Inácio não poupou esforços em defender não apenas sua divindade [25] mas principalmente sua humanidade e a veracidade seu sofrimento [26]
Ele sofreu tudo isso por nós, para que sejamos salvos. E ele sofreu realmente, assim
como ressuscitou verdadeiramente. Não sofreu, apenas na aparência, como dizem alguns
incrédulos [27]
A Eucaristia, por sua vez, era o comer do real corpo e sangue de Jesus Cristo [28], operando magnificamente em nosso interior como dom de Deus. Embora haja várias interpretações, destaco que o comer espiritual do pão de Deus (Jo 6:52-59) não deixa de ser uma alimentação real e significativa.
Os protestantes são mais avessos a exortações como a de Inácio por desconfiarem da frieza associada com a hierarquia e o clericalismo católico, confiando numa fé bem mais individual, entretanto não se pode negar o fundamento da união do Corpo de Cristo (Jo 17:20-26; 1 Co 12:12-31). É exigido possuir critérios para bons servos de Deus que ministrem os graciosos sacramentos de Deus, dádivas espirituais que regeneram o nosso ser e promovem a nossa união (1 Co 10:16-17; 11:17-34; Tt 3:5), inconciliáveis com discordâncias. É nosso dever manter uma inseparável unidade [29] e ainda que perversos busquem nos derrubar [30], apeguemo-nos a Palavra de Nosso Deus e ao Corpo que ele nos deixou para ser guiado pelo Espírito Santo, selo de nossa fé (Ef 1:14) e meio de conexão (1 Co 12:12-13).
A Igreja Católica Romana se apropriou de muito dessa linguagem com inovações próprias que corromperam os sacramentos e as Escrituras mas isso não deve fazer com que nós protestantes nos esqueçamos do legado dos Pais Apostólicos em defender arduamente os sacramentos, a Encarnação de Cristo e a união eclesiástica.
“Hoje, com o Credo Apostólico, confessamos fé na ‘Igreja santa e católica’. Foi isto que esse período nos deu: o cristianismo ‘católico’. Ele era mais do que uma organização’ era uma visão espiritual, uma convicção de que todos os cristão devem estar e um único corpo” [31]
Martírio
para sofrer com ele, eu suporto tudo, e é ele quem me dá forças, ele que se fez homem perfeito [32].
Se não estivermos prontos para morrer em Sua Paixão, Sua vida não estará em nós. [33]
Os cristãos tinham uma tremenda obstinação em não negar a Cristo, mesmo sendo obrigados a sacrificar aos deuses e a renunciar a fé se almejassem viver, atitude tida como crime de insubordinação como fica claro nas cartas de Plínio, o Jovem, direcionadas ao imperador [34]. Tertuliano (160-220) futuramente argumentaria contra a falta de lógica romana em sua Apologia, porém aos cristãos do primeiro e segundo século nada restava senão aceitar o destino que Deus preparou.
Não temos certeza do que levou Inácio a ser condenado, pois nem mesmo Jerônimo nos rende detalhes. Na Chronographia de João Malalas (491-578) ele diz que o imperador estava em guerra com os persas no oriente e encerrou a morte de cristãos na Antioquia, porém após um terremoto avassalador em dezembro de 115, Trajano culpou eles e especificamente Inácio pelo desastre e o mandou para ser devorado pelas feras [35], assim como outros cristãos [36].
Embora não saibamos se é verdade, o mais provável é que tenha sido preso entre os anos 107 e 110 como nos conta Eusébio, sendo levado pelas estradas do Sul da Ásia Menor com a escolta de dez soldados que o atormentavam como leopardos [37]. Teria sido mais barato levá-lo de navio, então é possível que não fosse a preocupação essencial da tropa.
Sabia muito bem como o transcendente e o invisível superam em muito a nossa realidade e deseja tal herança com todas as suas forças. O próprio Cristo Jesus torna-se ainda mais manifesto após sua ressurreição e que “O cristianismo, ao ser odiado pelo mundo, mostra que não é obra de persuasão,
mas de grandeza” [42]. Por anos pregou a todos sobre desvirtuar-se do mundo e ancorar-se a Cristo Jesus, abandonando todas as paixões que nos prendiam a essa terra corrupta e de repente se depara com a missão de colocar em prática a suas palavras, para que “não só me diga cristão, mas de fato seja
encontrado como tal” [43].
É melhor morrer para Cristo Jesus do que ser rei até os confins da terra. Procuro aquele que morreu por nós; quero aquele que por nós ressuscitou. Meu parto se aproxima. Deixai-me receber a luz pura. Deixai que seja imitador da paixão do meu Deus [45]
o único Médico, Própria carne, mas espírito também; Não criado, e apesar disso, nascido; Deus e Homem unidos em Um só; De fato, a própria Vida na Morte, O fruto de Deus e o filho de Maria; Ao mesmo tempo, impassível e ferido por dor e sofrimento neste mundo; Jesus Cristo, que conhecemos como nosso Senhor [49]
O inigualável mistério da Encarnação o encantava profundamente e dominava todas as suas paixões humanas. Nada era superado pela honra de padecer pela própria Vida e expressar a sua total devoção pelo único e Todo-Poderoso Deus. Sabia sofrer na carne porque Cristo veio em carne [50] e não rejeitaria essa defesa explícita do verdadeiro corpo de Cristo que salva nossas almas
Deixai que eu seja pasto das feras, por meio das quais me é concedido alcançar a Deus. Sou trigo de Deus, e serei moído pelos dentes das feras, para que me apresente como trigo puro de Cristo. Ao contrário, acariciais as feras, para que se tornem minha sepultura, e não deixem nada do meu corpo, para que, depois de morto, eu não pese ninguém. Então serei verdadeiramente discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo não vir mais meu corpo. Suplicai a Cristo por mim, para que eu, com esses meios, seja vítima oferecida a Deus. Não vos dou ordens como Pedro e Paulo; eles eram apóstolos, eu sou um condenado. Eles eram livres, e eu até agora sou um escravo. Contudo, se eu sofro, serei um liberto de Jesus Cristo, e ressurgirei nele como pessoa livre. Acorrentado, aprendo agora a não desejar nada [51]
Que nada de visível e invisível, por inveja, me impeça de alcançar Jesus Cristo. Fogo e cruz, manadas de feras, lacerações e desmembramento, trituração de todo o corpo, que os piores flagelos do diabo caiam sobre mim, com a única condição de que eu alcance Jesus Cristo. [53]
Michael Haykin corretamente expressou, “O martírio de Inácio foi uma poderosa defesa da realidade salvífica da encarnação e da crucificação. Em sofrer uma morte violenta, Inácio estava confessando que seu Senhor tinha sofrido realmente uma morte violenta e, por meio dela, trazido salvação à humanidade perdida. A confissão era tão importante, tão central à ortodoxia cristã, que era digna de alguém morrer por ela”. [54]
REFERÊNCIAS:
[2] BRENT, Allen. “Ignatius of Antioch: A Martyr Bishop and the Origin of Episcopacy”. A&C Black, 2007.
[10] Ep. aos Magnésios, 3
[12] Ep. aos Efésios, 2
[13] Ep. aos Efésios, 4
[14] Ep. aos Efésios, 5
[15] Ep. aos Esmirnenses, 8
[16] Ep. aos Esmirnenses, 8,9; Ep. a Policarpo, 4
[17]
Ep. aos Magnésios, 13[24] Ep. aos Efésios, 20
[25] Ep. aos Romanos, Saudação, 3,6 ; Ep. aos Magnésios, Saudação; Ep. aos Tralianos, 7
[26] Ep. aos Esmirnenses, 1
[27] Ep. aos Esmirnenses, 2
[29] Ep. aos Efésios, 4-6
[30] Ep. aos Tralianos, 11
[31] Shelley, 3, p.43.
[35] LIGHTFOOT, J. B. “The Apostolic Fathers”. Londres: Macmillan, 1890, p. 435-50
[36] Inácio, Ep. aos Romanos, 10; Pol, Ep. aos Filipenses, 9, citando Zózimo e Rufo.
[37] Ep. aos Romanos, 5
[38] HAYKIN, Michael. “Redescobrindo Os Pais Da Igreja”. Editora Fiel: 2012, p. 41
[39] Ep. aos Romanos, 4
[46] ibid
[47] HAYKIN, Michael. “Redescobrindo Os Pais Da Igreja”. Editora Fiel: 2012, p. 46
[48] Ep. aos Romanos, 7
[49] Ep. aos Efésios, 7
[50] Ep. aos Esmirnenses, 3
[51] Ep. aos Romanos, 4
[52] Ep. aos Romanos, 8
[53] Ep. aos Romanos, 5
[54] HAYKIN, Michael. “Redescobrindo Os Pais Da Igreja”. Editora Fiel: 2012, p. 54
[55] Ep. aos Tralianos, 11
[56] Ep. aos Tralianos, 9



